Hospedaria dos Imigrantes, um vilipendio, um desrespeito!

Santos já foi palco de interessantes e importantes movimentos políticos e culturais, mas tem um perfil de cidade conservadora e permanece com aquele fino véu que cobre seu passado não permitindo que vanguardas se revelem. E olha que essa vanguarda não seria nem de longe parecida com o rompimento do academicismo frente a arquitetura moderna que avassalou com os dogmas vigentes da época. A vanguarda a que se refere seria estar no mesmo nível de cidades onde a preservação do patrimônio histórico traz consigo a ideia de uma cidade que cuida dela mesma.

A fênix do litoral paulista tem vários exemplos de edifícios importantes e históricos que renasceram das cinzas. O bem-sucedido edifício revitalizado e restaurado Theatro Guarany que o diga pois foram 20 anos de espera abandonado a própria sorte depois de um incêndio. Há outros: os casarões do Largo Marques de Monte Alegre que possuíam três paredes arruinadas antes da intervenção que os transformaram no Museu Pelé; o Teatro Coliseu que teve seu restauro arrastado por mais de uma década e que depois de finalizado a cada tempo fecha para novos restauros; há também o Outeiro de Santa Catarina que depois de uma intervenção que o transformou na sede da Fundação Arquivo e Memória de Santos, foi esvaziado, se deteriorou e mais uma vez necessita de intervenção.

Sabe-se que essa é a pior política de preservação, deixar deteriorar para depois restaurar. Nesse processo, elementos originais se perdem e a cada intervenção ele fica diferente. A melhor política é a da conservação preventiva. Programas muito conhecidos atualmente de zeladorias do patrimônio vem se mostrando muito eficientes.

Atualmente se escuta muito que “o que é antigo é diferente do que é histórico”, induzindo o cidadão a acreditar que o que é antigo pode desaparecer, mas o que é histórico a gente deixa cair?

A Hospedaria dos Imigrantes não foge à regra. Vem desmoronando aos poucos há anos e de vez em quando alguém se lembra de fazer uma matéria sobre o assunto. Na verdade, o que incomoda é a pobreza ao redor e o aumento de moradores de rua devido a precarização generalizada por conta da pandemia do coronavírus.

Não faltaram iniciativas, pagas pelo bolso do contribuinte, alguns projetos já foram desenvolvidos, mas nunca saíram do papel. A guisa de ilustração em julho de 2000 a prefeitura municipal divulgava: Atéo final do ano, Santos terámais uma grande obra sendo construída e que deverágerar cerca de 2 mil empregos diretos e indiretos. O projeto arquitetônico do Centro de Convenções de Santos “Hospedaria dos Imigrantes”, que seráerguido no antigo prédio da Hospedaria, na Rua Silva Jardim, foi aprovado, ontem (18), em ato que contou com a presença de toda a diretoria do Sindicato do Comércio Varejista da Baixada Santista, responsável pela construção do empreendimento. Ainda hoje (19) deveráser liberado o alvaráque permite a construção do centro. As obras avaliadas em R$ 10 milhões 700 mil devem ter início entre os meses de novembro e dezembro, com um prazo para sua execução de 20 meses. A aprovação do projeto, que játinha sido liberado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa), sónão ocorreu antes pelo fato de a entidade sindical ter alterado os planos iniciais, retirando a garagem que seria construída no subsolo, passando o estacionamento para um terreno cedido pela Codesp

Ora, não é prioridade! Se estivéssemos falando de um edifício onde algum empreendimento imobiliário tivesse que ser erguido creio que já estaria tudo resolvido. Enquanto isso o que se vê é a Hospedaria se despedindo da história tijolo por tijolo, paulatinamente sua recuperação fica cada dia mais precária.

Não faltam estudos para o local, os cursos de arquitetura da cidade produzem todos os anos inúmeros projetos com usos diversificados, de escola de dança a entreposto de alimentação, de residência estudantil a parque urbano.

O Parque Balneário, o Clube de Regatas Santista, o Clube XV e conjuntos urbanos que vão do eclético ao neocolonial já foram demolidos e recentemente o Mercado de Peixes teve a mesma sorte.

Todos sabem o que fazer, o investimento não vem porque não há vontade política! Atualmente estamos vivendo um período de inconsistências e desistências e a memória vai pelo mesmo caminho. Um país que não valoriza a sua cultura, mas prioriza tudo aquilo que é efêmero tende a criar cidadãos de memória curta!

* Jaqueline Fernández Alves é arquiteta, urbanista, professora e pesquisadora.

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